quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Goiás é o segundo Estado com mais homicídios de mulheres


Mulheres pretas e pardas são as que mais sofrem com a violência

Goiás é o segundo Estado brasileiro que mais teve homicídios de mulheres em 2014. O dado foi divulgado nesta semana no Panorama da Violência Contra as Mulheres no Brasil, publicado pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal. De acordo com a pesquisa, Goiás registrou taxa de 8,4 homicídios por 100 mil mulheres, o número é superior à média nacional, de 4,6 homicídios por 100 mil mulheres. Goiás fica atrás apenas de Roraima, que teve taxa de 9,5 para cada 100 mil mulheres.
O levantamento aponta ainda que a violência letal registrada no ano foi maior contra mulheres pretas e pardas, uma vez que a taxa de homicídios relativa a essas mulheres se mostrou quase duas vezes superior àquela relativa a homicídios de mulheres brancas. Este dado se repete na maior parte dos estados brasileiros.
Os números mostram também que entre 2006 e 2014 o registro deste tipo de violência tem aumentado. Enquanto a taxa de homicídios de mulheres brancas residentes no Estado aumentou em 53%, passando de 3,6 a 5,5, a taxa de homicídios de mulheres pretas e pardas aumentou em 96%, passando de 5,3 a 10,4 homicídios por 100 mil mulheres.
Em relação aos registros de estupro, Goiás apresentou um número de ocorrências para cada grupo de 100 mil mulheres mais de duas vezes inferior à taxa de estupros registrada no País. Este dado foi citado na pesquisa do Observatório, mas foram publicados inicialmente no 10° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Análise
Para a professora da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Bartira Macedo de Miranda, os dados mostram que Goiás é um Estado de população machista e com cultura autoritária que perdura mesmo em meio ao aumento do debate em relação à violência contra a mulher. “Faltam políticas públicas direcionadas principalmente às mulheres mais pobres. No caso dos estupros, sabemos que os dados ainda estão longe da realidade porque a maior parte das vítimas não fazem denúncia”, lamenta a especialista.
Bartira afirma ainda que o problema de todos os tipos de violência contra a mulher está no fato de o Estado tratar a segurança pública com a ideia de combate e guerra e não em um paradigma de proteção dos direitos. A falta de divulgação periódica dos dados, afirma a professora, também é um empecilho, pois impede o conhecimento da população sobre o assunto e também barra a pesquisa de especialistas em segurança.
A pesquisa aponta esta falta de informação por parte da Polícia Civil de Goiás. Já a Secretaria de Estado de Segurança Pública, a pedido do Observatório, informou que, no ano de 2014, foram registradas 20.092 ocorrências relacionadas à violência contra mulheres, perfazendo uma taxa de 605,3 ocorrências para cada 100 mil mulheres residentes no estado.
Expectativa
A delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Formosa, Fernanda Lima, lembra que os números da pesquisa não separam os casos de feminicídio e de homicídio. “É importante lembrar que alguns assassinatos acontecem durante assaltos ou em decorrência de outra criminalidade urbana. Mas no que diz respeito a registrar o número de homicídio de mulheres, a pesquisa cumpre seu papel e os números são realmente altos”, avalia a delegada.
Ainda de acordo com Fernanda, em relação à violência doméstica, o número realmente tem crescido devido a criação de mecanismos que levam cada vez mais mulheres a denunciarem os casos. “Existem estados que o número de estupros, praticado por familiares ou desconhecidos, é menor. Isso acontece porque as mulheres não têm a mesma possibilidade de procurar uma delegacia, como existe aqui”, explica Fernanda. A delegada afirma também que, a longo prazo, os indicadores começarão a diminuir pois os resultados das denúncias e das políticas públicas vão começar a aparecer. “A estatística nua e crua não representa a realidade”, conclui.
Por Karla Araujo, do Mais Goiais 
 http:www.geledes.org.br
 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Qual a origem da expressão ‘dona’ e as questões que ela desperta

Tatiana Dias.

Marisa, Ruth, Marta, Dilma, Marcela. Só parte desses nomes vem acompanhada do pronome de tratamento. Entenda as várias conotações de seu uso.

 

Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, conhecida como 'dona Marisa' 

MARISA LETÍCIA, ESPOSA DO EX-PRESIDENTE LULA, CONHECIDA COMO ‘DONA MARISA

FOTO: MÍDIA NINJA/FLICKR/CREATIVE COMMONS

A internação da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva no dia 24 de janeiro após um AVC e sua morte dez dias depois trouxeram à tona o debate sobre o uso da expressão “dona” para as mulheres, em especial aquelas com destaque no cenário nacional. Não é sempre que o pronome de tratamento é utilizado. O uso varia conforme a pessoa, o interlocutor e tem significados diferentes — às vezes opostos — de acordo com o contexto e a quem ele se refere.
Para algumas pessoas, ele é um reflexo do machismo estrutural, já que apaga a individualidade da mulher e o seu trabalho. Ela é apenas “dona”. Para outras pessoas, é apenas um sinal de respeito em relação a mulheres mais velhas. Por conta dessa dualidade, o uso levanta críticas.

O que a palavra significa

“Dona” tem origem no latim. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra começou a ser utilizada nas famílias reais de Portugal e do Brasil como tratamento de mulheres que tinham algum título de superioridade — seja pelo casamento, religião ou idade. Originalmente, “dona” era um substantivo usado como sinônimo de “mulher”. Aos poucos, o uso comum o transformou em um pronome — mesmo processo que ocorreu com “senhor” e “senhora”, por exemplo.
Pronomes de tratamento são utilizados quando não se pode, por respeito ou hierarquia, falar diretamente com a pessoa. Por sua origem, o pronome “dona” é uma forma de se referir a mulheres casadas ou de mais idade. É um pronome quase sempre empregado na terceira pessoa — quando a fala é direcionada à mulher, normalmente utiliza-se o “senhora”. O rapper Mano Brown, por exemplo, sempre se referiu à sua mãe, em suas letras, como “dona Ana”.

Quando ‘dona’ é usado

Marisa Letícia ficou conhecida popularmente como “dona”, assim como aconteceu com Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique que morreu em 2008. A atual primeira-dama do país, Marcela Temer, não: aos 33 anos, ela é chamada apenas pelo nome.
A diferenciação, nesse caso, pode ser explicada pela idade. Para Maria Helena de Moura Neves, doutora em linguística e professora da Universidade Mackenzie, o uso da palavra em relação a Marisa faz referência à idade e, também, à função.
“São dois fatores: ela era do tempo do ‘dona’ que está aposto a seu nome. E, de certo modo, não deixa de ser uma maneira de dizer que ela é ‘do lar’ ’’, diz Neves. “Marcela, por sua vez, carrega o ‘Temer’ porque toda ‘posição’ que ela possa ter (pelo menos por enquanto) vem do sobrenome.”

Uma expressão, diferentes significados

O pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Guilherme de Camargo Scalzilli investigou as diferentes maneiras como a expressão “dona” é utilizada. Para isso, ele se concentrou em duas mulheres que tiveram relevância e papéis distintos na política nacional: Ruth Cardoso e a ex-presidente Dilma Rousseff.
A ex-primeira dama, que morreu em 2008 aos 78 anos, foi conhecida como “dona Ruth”. Mas ela poderia ser chamada de professora, ou mesmo de doutora, porque de fato era doutora em antropologia. Para Scalzilli, condicionou-se a utilizar o pronome “dona” por conta da “memória de certa vassalagem sócio-econômica de longa tradição no imaginário brasileiro”. Para o pesquisador, no caso de Ruth, o pronome “tem o efeito de uma carga respeitosa”.
Isso não acontece, no entanto, no tratamento de Dilma Rousseff.
A ex-presidente é tratada, comumente, apenas por “Dilma” ou “presidente Dilma” e suas variações. Seu nome é vinculado ao pronome “dona”, de maneira geral, apenas em situações depreciativas.
Quando Dilma é apresentada como “dona Dilma”, há referência indireta a uma série de estereótipos: autoritarismo, humilhação de subalternos, mulheres em situação de comando. “Existe um sentido que ‘dona’ confere aos enunciados sem fazê-lo de maneira taxativa”, escreveu Scalzili.
“Algo semelhante é obtido pelo pronome ‘dona’, que alude à mencionada representação machista da ‘dona Maria’, comum em frases como ‘Volta para o tanque, dona Maria!’”, escreveu o pesquisador.
Apesar dos significados distintos, para ele, os dois usos da expressão têm a mesma raiz machista. Trata-se de um “esforço para apagar suas particularidades individuais numa designação redundante de gênero que admite estigmas sexistas, quando não os corrobora”.

Para Marta, ‘dona’ é machismo

A mesma avaliação foi feita pela senadora Marta Suplicy (PMDB-SP). Em 2004, enquanto disputava a eleição para a prefeitura de São Paulo, Marta (então candidata pelo PT) foi chamada de “dona” pelos adversários José Serra (PSDB) e Paulo Maluf (PP).
Na época, ela classificou o tratamento como “machista”: “já começaram de novo a me chamar de dona Marta, que é quando eles querem usar uma forma pejorativa contra a mulher e desqualificar a mulher", declarou na época a hoje senadora.
Na eleição de 2008, Gilberto Kassab, então candidato a prefeito pelo DEM, também recorreu à mesma forma de tratamento em relação à Marta: chamou-a de “dona” seis vezes. “É um sinal de respeito, ela é mais velha do que eu”, ele declarou na época.
“Você vê que é o mesmo termo, que a princípio é respeitoso”, diz o pesquisador em linguística Henrique Braga, doutorando em letras na USP. “Eu digo ‘dona Ana’ porque não posso ser íntimo, mas digo ‘dona Marta’ porque quero dizer que você não é desse espaço.” Para ele, há duas leituras possíveis sobre o significado: o próprio machismo da escolha do termo, ou um “termo respeitoso que revela uma estrutura machista”.
“O uso desse tipo de tratamento tem um toque senzalesco, como se a sinhá do presidente fosse dona dos súditos”, escreveu o jornalista Elio Gaspari. Ele lembra, também, que o termo nunca foi utilizado em referência a Michelle Obama, por exemplo, tratada sempre pelo próprio nome.

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Maternidades do estado serão contempladas com novos equipamentos

 
Foto: Gleilson Miranda/Secom
A boa notícia foi dada pelo secretário de Estado de Saúde, Gemil de Abreu Júnior, ao governador em exercício Ney Amorim nesta terça-feira, 7.
Os novos equipamentos foram financiados pelo Programa de Inclusão Social e Desenvolvimento Sustentável do Acre (Proacre).
O investimento, de R$ 1,5 milhão, visa fortalecer as ações de estruturação da Rede Obstétrica e Neonatal, por meio da estruturação das maternidades de Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Feijó e Brasileia.
Segundo o secretário de Saúde, a ação deve ocorrer até o fim de fevereiro. “São mais de quatrocentos equipamentos, que vão reforçar o atendimento às mulheres que utilizam a rede pública de saúde”, frisou Gemil.
“Os investimentos na área da saúde são sempre prioritários, pois quando fortalecemos nossa rede pública, estamos salvando vidas.  Os equipamentos vão melhorar ainda mais o atendimento nessas maternidades. Apesar de estarmos vivenciando uma crise econômica, o governo do Estado continua investido na qualidade de vida dos acreanos”, observou Ney Amorim.

Proacre

O Proacre, financiado pelo Banco Mundial, vem sendo executado pelo governo do Estado desde 2009 e alcançou resultados positivos nas áreas de educação, saúde e produção.
Por Maria Meirelles
http://www.agencia.ac.gov.br

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

As mulheres negras da Nasa que mudaram o rumo da corrida espacial

'Estrelas Além do Tempo' estreia na quinta-feira (02) e revela a história das mulheres que enfrentaram o apartheid para mudar a história mundial.

 

estrelas-alem-do-tempo

Em fevereiro de 1962, o astronauta John Glenn (que morreu no em dezembro do ano passado) marcou seu nome na história da exploração espacial ao tornar-se o primeiro americano a orbitar a Terra. O que nunca havia sido revelado, porém, é que por trás do feito estavam mulheres apelidadas de “computadores humanos”.
Além do estigma de gênero, as responsáveis pela organização da operação encararam outro preconceito: eram negras em época de segregação racial acirrada nos Estados Unidos. No dia 2 de fevereiro, Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, funcionárias exemplares da agência espacial americana, têm suas trajetórias contadas em Estrelas Além do Tempo, filme de Theodore Melfi.
Para interpretá-las, foi recrutado um elenco de peso, que inclui Octavia Spencer, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas (2012); Taraji P. Henson, da série Empire, e a cantora Janelle Monáe.
Spencer vive Dorothy Vaughan, primeira supervisora negra da Nasa, que aprendeu sozinha a mexer no imenso computador da agência, e concorre ao Oscar 2017 na categoria Melhor Atriz Coadjuvante.
Henson é a tímida Katherine Johnson, gênio da matemática que obteve o diploma universitário aos 18 anos e foi chamada pessoalmente por Glenn para checar se a nave estava em ordem – ela encontrou problemas que puderam ser corrigidos antes da decolagem.
Por fim, Monáe faz Mary Jackson, a primeira engenheira negra da Nasa, formada em uma escola para brancos com a autorização de um juiz.
Na época, as três andavam 40 minutos para chegar ao banheiro destinado a elas na empresa. “O inspirador é ver que essas mulheres enfrentaram obstáculos porque queriam mudar a história do mundo e conseguiram”, afirma Monáe. 
Estrelas Além do Tempo também concorre ao Oscar 2017 nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado